– Vamos tomar café?

Eu mal abri os olhos e peguei o celular, que não parava de tocar. Era nosso toque especial, a música que mais gostávamos. Eu sabia que ela precisava de mim, então, não hesitei em levantar no escuro, alcançar a roupa que usei ontem e me dirigir para o banheiro para escovar os dentes. Quando eu olhei pela janela e vi que o breu me impedia de ver além, me dei conta que era cedo (ou tarde, dependendo do ponto de vista). Então, me esforcei para focar na tela e ver que eram três da manhã.

Eu sei que ela tinha alguns costumes meio estranhos. Sabe aquilo de viver tudo que pode hoje porque o amanhã pode não chegar? Era a descrição perfeita dela: é como se cada respiração pudesse ser a última, logo, ela fazia o que queria, quando queria. Se isso lhe dava certa liberdade, mostrando uma espontaneidade apaixonante, também acabava atormentando-lhe. Ansiosa, ela falava tudo sem pensar e não dava chance para que a vida resolvesse seus problemas. Ao menos, era assim que eu pensava, já que ela me fez levantar no horário em que os jovens estavam indo para a cama.

Peguei minha bolsa, desci as escadas com a delicadeza de quem tem algo a esconder e liguei o carro. O barulho do portão acordou o cachorro, que latiu fervorosamente apesar da minha testa franzida e do meu comando de “não”. Quando ele viu quem era, derreteu-se e eu confesso que queria pegá-lo no colo, voltar para a cama e aproveitar o resto do meu sábado (ok, já era domingo, mas eu não achava que estava acordada ainda). Entretanto, as amizades são parte de nosso ser: sem nossos amigos, parece que o mundo não tem sentido. E, bem, ela era minha melhor amiga. O que eu poderia fazer?

Encontramo-nos no posto 24 horas perto da casa dela, local que já foi nosso esquenta de várias saídas. Éramos conhecidas: cumprimentei o frentista, que até fez alguma brincadeira porque meu carro estava sujo. Sorri educadamente, disfarçando meu mau humor e cansaço. Ela estava dentro da loja de conveniências e já tinha pedido o meu latte (amo que ela sabe o que eu gosto!), que estava um pouco frio. Quando me viu, levantou aqueles olhos cansados de sonhos perdidos e não conseguiu segurar as lágrimas, que se misturaram com o café preto que ela acabava de encostar em seus lábios.

– O que aconteceu? – perguntei enquanto sentava ao seu lado. Meus braços já a abraçavam, como sempre faziam nessa dança de acolhimento e demonstração de carinho.

– Eu cansei de ser quem sou. Outra vez, falei demais e ele foi embora. Ele me deixou…

– Quem te deixou?

Confesso que eu estava perdida em suas histórias. Ela buscava sempre amores impossíveis e quebrava seu coração a cada vez. Para ela, não havia começar devagar: ou era ou não era. Intensa, ela queria viver uma paixão que desse um sentido para sua vida, uma paixão que tirasse seu fôlego e a fizesse sonhar com dias melhores. Novamente, pelo jeito, ela havia se doado demais a algum rapaz que não soube ver sua beleza.

– O Henrique… Sabe aquele que eu te contei que conheci na festa do trabalho? Então… Ele não me quer… Não sei o que fazer!

Eu sabia quais os conselhos que eu deveria dar a ela. Eram os mesmos conselhos que eu dava a mim quando estava sóbria e fazia minha mente ser mais forte do que meu coração. Mesmo sendo lógico, mesmo sendo o mais sábio a fazer, sempre acabamos esperando uma resposta diferente do que está acontecendo em nossa frente. Sempre imaginamos que eles estão fingindo o que sentem, que somem porque estão apavorados e que, um belo dia, vão descobrir que somos especiais. Quantas vezes eu criei essa história em minha cabeça? E, bem, acho que nem preciso comentar que isso nunca aconteceu, né?

Mas às três da manhã, eu estava vazia de sabedoria. As palavras fugiram, como se soubessem que elas seriam insuficientes para resolver o problema. Um coração partido não se resolve com palavras. “Aliás, como se resolve um coração partido?” era tudo que eu conseguia pensar. Foi quando me veio a ideia: vamos ter que fazer algo. E a resposta era tão óbvia e tão ridícula que eu até ri.

Ela me olhou, observando a mudança em meu semblante. Eu levantei, fui até a gôndola e trouxe uma vodka e duas schweppes citrus.  O café ainda estava na metade, mas não importava: era hora de mudar. Beber não conserta um coração quebrado, mas traz sorrisos inesperados e faz o dia (ou a noite) ficar mais leve. Às vezes, também pode ser uma perdição: relaxar a mente nos tira toda a inibição e, confesso que nessas horas, já mandei várias mensagens que não deveria.

Mas eu estava ali, ela estava ali, era madrugada e não havia nada mais a fazer. Pedi dois copos, abri a vodka e fiz a mistura. Ela começou a sorrir com a situação, já que não era a minha forma de agir. Sempre fui mais controlada, a cabeça da dupla. Mas naquelo momento, tudo que precisávamos era deixar as dores irem embora, e ver a reação dela já estava me deixando feliz – não que fosse esse o objetivo de tudo, mas eu também precisava de um momento longe de todos os problemas.

Sentamos na parte externa do posto. E eu comecei a falar:

– Sabe, não adianta eu falar mal do Henrique para você agora. Porque agora, eu sei exatamente o que você quer. Sei o quanto você gostaria que ele aparecesse aqui, te dissesse várias palavras lindas e te levasse para longe, como se toda essa dor tivesse sido um sonho. Eu também não posso te falar que ele gosta de você ou que se tem algo que poderia fazer ele ficar. A verdade é que não temos nenhum tipo de poder sobre o que o outro sente. Na verdade, não temos nem sobre o que sentimos.

Os olhos dela encheram de lágrimas. Ela virou o copo com a mesma facilidade que respirava, como se isso fosse tudo que ela pudesse fazer. E, sinceramente, era mesmo. Eu, então, continuei:

– A única coisa que podemos mudar é como agimos. E sei que, nem sempre, poderemos fazer o que gostaríamos. Temos que aprender a viver nesse conflito de agir contra o que sentimos. É somente assim que vamos sobreviver. Somente buscando outros momentos e situações que preencham nossos dias até que tudo isso passe. Sei que não é a primeira vez que você sente isso. E não será a última. E sei que ainda dói. Mas talvez você tenha que ser mais comedida, mais leve…

– Eu não consigo. Eu queria mudar. Queria ser outra pessoa. Mas eu não consigo. Anseio tanto por um amor que sufoco tudo que toco.

– Mas é isso que você precisa mudar. Apesar de que, eu realmente acredito que as pessoas deveriam gostar de nós pelo o que somos. Não existem desculpas para o amor. Mas você sempre sofre.

– Eu sei…

Sempre pensamos que nós somos o problema. Mas gosto de pensar que, quem realmente gosta da gente, não vai se afastar na primeira dificuldade. Foi então que eu perguntei:

– O que você acha que falou demais?

– Falei que estava apaixonada. Que gostaria que nossa vida fosse mais do que encontros casuais que terminavam com nossos corpos entrelaçados na cama. Falei porque sentia que era especial. Falei porque não quero perder tempo enquanto o amor passa em minha frente. Quero abraçá-lo, vivê-lo. E eu realmente achei que era amor.

– Deveria ser. Para você. Mas sabe que, na vida, nós ficamos somente com o que sentimos. Acredito que temos que ser sinceros e fiéis conosco. Também não gosto desses joguinhos de ser “difícil”. Gosto de falar sim quando eu quero falar sim. Gosto de falar não quando eu quero falar não. E talvez quando eu não sei o que quero.

Ela riu. Foi uma gargalhada tão descontraída que parecia que o mundo tinha sorrido de volta para ela. Ela tinha isso, essa facilidade de agir como se toda a sua dor tivesse ido embora rapidamente. Eu sabia que, hoje, ela iria se abrir para mim, mas que amanhã carregaria um semblante tão simpático que ninguém acreditaria que seu coração estivesse estilhaçado. A sua armadura era sempre encarar tudo com bom humor, como aprendizado, como se todos os sofrimentos valessem a pena. Ao menos, era isso que ela mostrava para seus colegas de trabalho e para suas outras amigas. Comigo, ela poderia ser isso e aquela moça frágil, que queria desistir de tudo. Que gostaria de desistir de ser ela mesma.

A nossa conversa continuou. Falamos sobre outros assuntos. Lembramos do Mário, do Daniel, do Gabriel, do Renato, do Julio, de outros amores que nos ensinaram tanto, mas que levaram um pedaço de nosso coração a cada término. Cada relacionamento nos transformava, transformava a nossa vida em uma montanha russa de sonhos e desilusões. Mas ali, na madrugada, após mais um fora, essa era a melhor conversa que poderíamos ter. Ela, então, me perguntou:

– Você acha que seremos felizes algum dia? Acha que encontraremos o amor verdadeiro?

– A primeira pergunta, bem, talvez a resposta esteja em dias como este. Quando deixamos a dor se transformar em risadas… Afinal, é tudo que podemos fazer, não é? Agora, sobre a segunda, acho que já encontramos. Eu sei que já encontrei. E mesmo que tenha acabado, sei que fui verdadeira. E isso me basta. Eu vivi, eu senti. Foi real para mim.

Quando ela virou os olhos para me encarar, ela pode observar que, agora, era minha vez de desmoronar. Não tinha problema: a garrafa ainda estava na metade e não tínhamos nenhum outro lugar para ir às três da manhã.