Trem das nove e três

Eu estava atrasada. Enquanto isso, eu olhava para os trens que passavam ansiosamente, como se isso fosse suficiente para fazer com que eles corrigissem a minha falta de planejamento. Naquele dia, o despertador tinha falhado, e os minutos que fiquei a mais na cama foram responsáveis por uma hora perdida entre alarmes que não deveriam ter sido desligados.
O trem, então, chegou. Enquanto a multidão descia, empurrando sem medo quem quisesse entrar, eu te vi na janela. Veio então um estranhamento conhecido, como se encontrar aquele olhar já fizesse parte da minha vida. E então, seus olhos azuis decidiram que havia algo em mim para ser visto. Não consegui desviar o olhar, mas você piscou, esboçou um sorriso e olhou para frente, voltando para seu mundo – um mundo em que eu não existia.
O ar me faltou por alguns instantes. Ajeitei minha mochila, subi as escadas e quase fui vítima da porta que subitamente se fechou. Ainda consegui ouvir a gravação que indicava que a direção que eu escolhi era Greenwich, mas a partir dali, o barulho se tornou meu silêncio, replicando aquelas cenas tão esquisitas que eu já tinha visto acontecer nos filmes.
Fui ganhando espaço entre as pessoas para chegar até o vagão em que você estava. A força que me arrastou foi inacreditável. Era como se eu tivesse que estar ali, perto de você, mesmo que eu não conseguisse entender o que estava acontecendo. Segurei-me na barra, trouxe minha mochila para frente e puxei meu celular para ver as horas. O relógio me respondeu com um brilho único: 9h03. É, eu realmente estava atrasada.
O trem docemente arrancou da estação, e eu me dei conta de que nunca estive ali naquele horário. Sempre fui pontual. Sempre cheguei antes aos lugares. Sempre fui daquelas que abria as portas do escritório e encerrava o expediente com um sorriso no rosto pela satisfação de ser a primeira e a última ao mesmo tempo. Só que eu estava fora da minha zona de conforto, estava uma hora atrasada do horário que eu gostava de chegar – só que estava prestes a passar 10 minutos com você. E tudo isso me trouxe um contentamento desigual, uma recompensa em um dia atípico, que tinha começado errado.
Fiquei pensando se eu deveria sentar perto, puxar conversa ou apenas me aproximar. Não havia tantas pessoas entre nós, mas eu não consegui: fiquei ali mergulhada naquele oceano que brilhava na minha frente. Eu tinha me perdido no seu olhar. Você estava conversando com alguém e, enquanto isso, eu só ficava pensando se eu já tinha visto olhos tão azuis quanto os seus.
Então, você sorriu. Eu olhei para o lado e voltei meus olhos para você. E novamente nossos olhares se cruzaram e se perderam.
Pensei em onde eu estava com a cabeça em tudo isso. Logo eu, tão tímida, admirando um estranho no trem. Só que não era um estranho. Era um desconhecido tão familiar quanto meu próprio retrato no espelho. Era um desconhecido que todas as células do meu corpo reconheceram. Era um desconhecido que fez meu coração pular na boca, que roubou a minha respiração e que me fez sonhar acordada com tanta profundidade que eu poderia ter escrito um livro inteiro sobre aquele momento.
Abaixei minha cabeça por um instante, tentando recobrar a minha consciência, que certamente tinha desaparecido. Forcei o ar aos pulmões e sem eu mandar, minha atenção se voltou novamente a você. E desta vez, era você quem me olhava. E o encantamento nem pode ser quebrado pela gravação que me avisava de que a minha estação destino seria a próxima. Ou eu ouvi ela falar que meu destino era você?
Sorri. Foi um sorriso daqueles de leve, tímidos, que trazem aos olhos todas as fantasias que conseguimos inventar e toda a felicidade que pode surgir se elas se tornarem reais. E você sorriu para mim. Retornou a gentileza de maneira tão dócil que encheu meu coração de alegria. Meu dia, minha semana, enfim, a minha vida tinha valido a pena por causa do movimento suave e abrupto de seus lábios. Os segundos mais demorados que já vivi.
Gostaria de ter te dado meu número, mas não o fiz. Levantei a mão, acenei um tchau retraído e vislumbrei mais uma vez seus olhos. A multidão entre nós até tentou esconder, mas você sussurrou “te vejo amanhã?” e aquele convite recebeu como resposta apenas um olhar que já revelava tudo que estava prestes a acontecer.
Desci do trem, parei, respirei fundo e observei a janela novamente. Mesmo pelo vidro, seus olhos tinham um brilho inesquecível, o qual fazia par perfeito com o sentimento que me afogava e deixava sem fôlego naquela estação. O mundo realmente parou e eu não conseguia me mexer, mas a minha paralisia temporária decidiu ceder espaço e consegui observar o trem seguindo seu caminho, com você nele.
Desde então, eu chego atrasada no trabalho muitos dias. Alguns dias, chego consideravelmente mais tarde. Em outros, saio na escuridão do dia que nem ainda é dia para ir ao encontro da estação – e de minha frustração.
Já percorri todos os vagões. Já fiz a travessia sentada observando todos os passageiros que aguardavam para entrar. Já me aninhei no mesmo banco em que te conheci para ver se conseguia alguma outra conexão. E nada aconteceu: você nunca mais apareceu no mesmo trem que eu. Você nunca mais apareceu.
É difícil imaginar que apenas 10 minutos, algumas olhadas e uma conexão instantânea podem fazer tanta diferença em quem somos e nos nossos sonhos. Acredite, eu sei, porque faz dois anos que seus olhos me perseguem à noite e me contagiam durante o dia, inundando meu mundo com a tristeza do acaso e com a alegria repentina de saber de que eles estão por aí, em algum lugar, como estrelas distantes que enfeitam o céu com luzes cintilantes e extremamente quentes. Eu sei que eles estão por aí.
Apesar de que eu nunca mais ter encontrado nada parecido, eu tento me convencer de que foi melhor assim. De que a perfeição do que nunca aconteceu (ou de tudo que aconteceu) jamais poderá ser superada. E de que assim, eu posso apenas lembrar daquele abismo que me sugou com a mesma intensidade e que eu posso fitar eternamente para aquele azul infinito, paralisante e que deu sentido ao que eu nem sabia que existia – para isso, basta fechar os olhos, sonhar acordada e entrar no trem às 9h03.












