As cartas que eu nunca enviei – I

Querido W:
Não sei como tudo acabou assim. Em um pequeno instante, o mundo se afogou em mágoas e cada momento que vivemos foi transformado em pó. Ao menos, foi essa a sensação que eu tive quando te encontrei e você nem se deu o trabalho de me cumprimentar. Seu olhar atravessou meu corpo com tanta insignificância que pensei que, se eu fosse uma estranha, você teria prestado mais atenção às lágrimas que berravam ao mundo a dor que eu mal suportava carregar.
A dor, tão aguda quanto salgada, corroeu meus pensamentos de maneira cíclica. Nesse carrossel de sentimentos não havia diversão: apenas a vontade de vomitar todas as mentiras que você me vendeu. O quanto eu era única. O amor infinito que você tinha por mim. E as promessas tão grandes que eu acreditei tão cegamente. Para mim, eu já tinha conquistado o mundo: eu já tinha você. Para você, o mundo era todo o resto, tudo onde não havia mais eu.
Não sei quando eu percebi que você simplesmente esqueceu. Ou fingia esquecer. Durante um bom tempo eu sentia seus pensamentos como fantasmas que me seguiam. Você não me queria mais, mas não me deixava ir. O orgulho de se sentir desejado. A luxúria de um passado que você desejava, mas que não tinha coragem de assumir. As saídas tão fáceis criadas em sua mente, com os vilões que você desenhou na sua própria sombra.
Você devastou o jardim da minha casa e ainda disse que a destruição tinha sido minha. Deixou-me sozinha com a falsa esperança de futuro. Foi para longe e ainda encontrou uma forma de assombrar meus dias. Talvez fosse vingança. Hoje, penso que era apenas egoísmo.
Consigo ver como toda sua foi história previsível: as saídas nos mesmos locais. As mesmas canções. E as tão conhecidas desculpas pequenas para se aumentar e reduzir os demais. E ainda vivendo os nossos sonhos como se fossem apenas seus. Querendo ainda destruir o meu futuro com mentiras tão assustadoras que me pego pensando se você realmente acreditava que eu te amaria para sempre. Porque eu, durante algum tempo, na ignorância da juventude, acreditei.
Há situações que eu vou levar para sempre comigo. Não com mágoa. Não com carinho. Apenas com tristeza de saber que aquela pessoa que eu tanto amei nunca mais existiu. E apenas com a felicidade de saber que suas escolhas foram as melhores possíveis para mim.











