O fim do mundo que já acabou

As notícias nada animadoras entraram convidativas em minha casa. A voz da jornalista, tão doce, era um contraste com o conteúdo tão insípido explicado em palavras silabadas. Pequenas gotas de informação me dizendo que o caos tomaria conta do presente, um paradoxo que confrontava a verdade da minha caminhada em direção ao incerto, e ainda alimentada pelas esperanças fulas de um sonho de verão qualquer.

Quando falam que o mundo está para acabar e você pensa que ele já se foi, como é a sensação? Eu realmente não sabia como reagir às notícias de que haveria um mundo para se perder. De que haveria algo para se lutar por. Ou que ainda haveria motivos para esperançar à janela as imagens incompletas e borradas de um passado tão ousado a ser presente. Era apenas o resumo de um pequeno absurdo se tornou palpável para quem ainda vive a amargura da ausência não planejada.

A distância e o isolamento não eram novidade. Isolar-se de si mesmo, reduzindo seus sentimentos em atos desconexos com a realidade, era algo que eu sabia viver. Não ver, não encontrar, não tocar, não almejar eram tão inerentes que não se poderia imaginar uma realidade diferente disso. Apenas esperar, apenas passar, apenas observar e saber que a liberdade é ameaçada por monstros que habitam minha sala já era minha rotina. O desespero. A falta de ar. E a esperança desgastada eram quadros pendurados em meus aposentos, que refletiam em meus olhos histórias que já não sei mais contar.

A solidão passou a ser compartilhada. As ruas vaziam se tornaram o espelho do meu coração e de tudo que vivi desde a última vez em que eu o senti batendo. O silêncio, apenas uma leve dança de sussurros de memórias fragmentadas, desapegadas da essência da vida. Ah, e a vida… Essa pequena estrada tão esburacada, cheia de curvas sinuosas e atalhos perigosos… Que acabou simplesmente me levando a um lugar abandonado e sem ter como retornar.

O desespero compartilhado das pessoas contrastava com a minha serenidade explicada. A euforia de perder algo tão belo e observar, apenas como passageiro, cada nascer e pôr do sol. A prisão forçada no momento, a impossibilidade de desbravar caminhos desconhecidos. A certeza da incerteza e um calendário infinito de minutos preenchidos por imagens iluminadas e repetidas.

Mas para mim, era apenas outro dia. Outro dia dentre tantos outros já perdidos, já desperdiçados no meio de tanta dor. Apenas outro corte em um corpo tão dolorido e maltratado. Apenas outro fim do mundo que já acabou.

E a inveja, então, tomou conta de mim. A inveja daqueles jovens tão cheios de vida, que gostariam de sair à rua para simplesmente viver. A inveja daqueles idosos, que diante toda a situação, banhavam-se de alegria. A inveja daqueles que compartilhavam sonhos e planos futuros. A inveja daqueles que não se entregaram.

E então, no caos, eu encontrei uma quietude. Encontrei a paz que me faltava. A falta que me completava. O completo que me abismava. O abismo em que eu me entregava. A entrega que apenas me lembrava. E a lembrança de que viver é esse misto de sentimentos, em uma contínua decepção de dores e valores. A lembrança de que abraços podem ser aconchegantes e apertados. E a lembrança de que certos amores merecem ser memórias – e de que certos deles merecem ser presentes. Presentes o suficiente para continuarmos. Presentes o suficiente para reanimar um coração latente. E presentes o suficiente para viverem eternamente.