Impossibilidade

Eu lembro de todos os planos que você fez. A inocência de quem sempre acredita que a mudança é possível. Você esperava que ele pudesse te observar da mesma maneira como da primeira vez. Ah, aquela primeira vez, quando seus lábios se tocaram com tanta delicadeza que a paixão tomou conta de seu corpo e sufocou sua boca com o gosto gelado de menta e cerveja.
Entretanto, você virou enfeite. Jogada na sala, sozinha na cama. Brigando entre os amigos, as noites, o futebol, o cachorro, a lua ou qualquer barulho. Como se qualquer movimento fosse suficiente para fazê-lo olhar para fora e desviar a atenção que deveria ser sua.
Você até achava que o problema era comum, mesmo sendo incomum para você. Por isso, chorou no banheiro, não contou para suas amigas e respirou fundo jorrando esperança. Usou sua melhor roupa. Passou o seu batom vermelho. E se olhou confiante no espelho para um vazio que você não sabia explicar. A decepção borrou seu rosto de preto e o vermelho estampou a taça que, sem companhia, devorou uma garrafa de vinho com a mesma facilidade que uma criança toma um sorvete.
Ele não viu os sinais. Ou talvez tenha sido você. Conviver no mesmo espaço sem compartilhar os sonhos era a rotina. Dois estranhos dividindo a cama, encostando os corpos, mas perdendo a conexão de almas. O estopim para o fim, que deveria ter chegado mais cedo.
Você juntou seus pertences naquela noite, e ele, abismado, jurou que mudaria. Toda a atenção para o que estava acontecendo. Toda a atenção para o hoje, sem considerar o amanhã. Toda esperança transformada em intimidade e atitudes tão sinceras que poderiam dizer que o futuro seria diferente. Só vocês dois como protagonistas de uma nova história tão conhecida a ponto de você fingir – porque, no fim das contas, você sabia qual seria o final. E o final sempre é o retorno a um novo começo, ao vazio da casa abandonada e às mágoas que você não conseguiria apagar.
Chegou então aquele momento de colocar as malas nas roupas, separar os bibelôs das estantes e brigar para ver quem ficaria com o gato. Seu olhar cansado ainda carregava a inocência, mas dessa vez, de forma culposa. De alguma maneira, você acreditava que poderia ter feito algo diferente. Talvez tentar mais um dia. Ou ter desistido antes. Você só se sentia desacreditada, um imenso elefante ignorado na casa como se fosse uma pequena partícula de pó. Sentia que os dias tinham passado e que você perdeu as chances de ter feito algo diferente. Ficou, então, a desilusão de ter que esquecer algo que ainda batia em seu coração. “Ter que continuar sempre é difícil” foi o que você me disse enquanto degustava uma taça de vinho no seu restaurante predileto. As cicatrizes ainda eram visíveis em seu rosto inapto para alegrias passageiras e noites sem futuro. Tudo que você queria era esquecer e continuar, mesmo que isso significasse renunciar a toda a verdade de quem você era e das mentiras que carregou consigo por tanto tempo.











