O som do adeus
Ela ouviu aquele barulho que conhecia mais do que sua respiração. O ronco aguçado da moto dele, livre como uma noite quente de verão, que alertava que era momento de sérias decisões. Aquele estrondo também era um grito de lembranças para sua mente: o vento embaraçando seus cabelos, sorrisos soltos no inverno, o calor do corpo dele que tentava esquentar seu tronco mal agasalhado. Lembranças de quando eles eram livres, conectados e apaixonados. Lembranças de dias felizes.
Sem querer, um tímido sorriso fez a lateral esquerda de seu rosto esticar seu lábio. Mas então, seus olhos focaram em pensamentos que definiriam todo seu futuro – ao menos, era o que ela pensava. Desceu a escada enquanto a moto ficava silenciosa, como que respeitando tudo que estava para acontecer. Nervosa, ela cruzou os braços – não porque estava fechada, mas porque tinha que conter a vontade louca de abraçá-lo.
Ele deslizou o capacete de seu rosto, revelando aqueles olhos tão claros que faziam ela sempre confundir a cor. As mãos acharam no bolso a justificativa perfeita para não alcançar as mãos sedentas dela, que ansiavam pelo calor do corpo alheio. Ele não sabia o que falar, ele não sabia o que fazer. Sabia que ela queria conversar, então, ali ele estava.
O cumprimento foi meio desajeitado, daquele que não sabe se o abraço deve fazer par com o beijo sem graça de bochechas. Mas ela deixou de lado seu orgulho e esticou as mãos no pescoço dele, que aninhou devagar seu rosto perto dos cabelos dela. Foram alguns segundos e foi como se nada tivesse acontecido. Há momentos em que o passado consegue viver no presente, revivendo sentimentos, parando o tempo em frações de felicidade. Mas um carro passando na rua foi suficiente para quebrar esse encanto e trazer o presente, destruindo uma história que se refazia na mente deles.
Ela já sabia de tudo que iria acontecer. Porém, admitir para si mesma a derrota era admitir seu fracasso. Mas quando se tratava de paixão, bem, ela era especialista: corações apaixonados são impetuosos, corajosos, serenos e acelerados. E na última vez que ela tinha o encontrado, bem, ela viu a calmaria. E não era um relaxamento bom, era simplesmente a indiferença que pairava no ar. Enquanto ela se esquentava no meio dos abraços dele, ele fechava os olhos e viajava para lugares longe. Longe dela. E era algo que ela sabia, embora ele achasse que não.
Ele olhou para ela mais uma vez. Gostava dela, gostava de sua companhia. Lembrava de todas as risadas compartilhadas, dos beijos risonhos, de seus corpos entrelaçados. Mas ele não sabia o que queria. Em alguns momentos, sentia falta dela como se fosse o ar, e somente sua presença conseguia fazer seus pulmões funcionarem novamente. Em outras horas, era como se ela não existisse, como se fosse uma recordação do passado que não tem mais lugar em sua vida. Entretanto, ele estava nervoso. Ele não sabia o que ela iria falar e qualquer das possibilidades o assustava.
Ela respirou. Olhou para o chão – sempre usava esse artifício quando estava nervosa. Então, levantou o rosto, sem medo de esconder os olhos lacrimejados. E todo discurso que ela decorou na frente do espelho saiu errado, mas ela disse, mesmo assim… “Eu sei que você não sente o mesmo por mim. E tudo bem. Eu vou ficar com as minhas memórias, é o que vai sobrar. E eu sei que eu te amei. Eu te amo ainda, para falar a verdade. Mas é nítido que isso não vai dar certo. Você não quer”.
Ele pensou em se aproximar e roubar um beijo. Deu um passo em direção a ela, mas ela se afastou. Ela estava determinada. Ela estava cansada de ter tudo pela metade: era hora de viver por completo, de ter tudo que ela sempre sonhou. E ela acrescentou: “Não sei até quando eu vou me sentir assim. Pode ser que demore, pode ser que passe rápido. Mas eu vou seguir em frente. Se algum dia você vir que seu sentimento mudou, bem, você sabe onde me encontrar. Agora, é com você. Mas aviso: não vou amar para sempre o que eu não tenho…”.
Ela correu para os braços dele, enroscou seu corpo rapidamente, encostou seus lábios no lugar que era sua casa e virou as costas. Fez isso porque viu em um filme, mas sua vontade era ficar ali para sempre. Mas ela sabia que não podia, ela sabia que não deveria. Entrou em casa sem olhar para trás, com as batidas de seu coração trancando sua garganta. Soluçou como uma criança quando ouviu ele ligando a moto. Da janela da sala, observou ele colocando o capacete e, então, ouviu aquele barulho que ela sabia de cor e que não escutou mais: o ronco da moto dele, o som do adeus.










