Destino esperado

A respiração lenta se torna cada vez mais espaçada. Cada parte do corpo reclama, como se fazer simplesmente o seu dever fosse pedir demais. As mãos tremem geladas enquanto o tato se torna um amigo conhecido do passado, mas que não se vê faz tempo. A iminência do futuro bate à porta quando as pessoas que estão no quarto o enchem com lágrimas e soluços.

Os olhos brigam para se manterem abertos, absorvem e relutam a luz que os faz funcionar. As imagens se aglomeram em um misto de verdade e invenção, trazendo os rostos mais amados perto de si. A boca, então, se abre e suspira, a elegante poesia da vida de simplesmente deixar o ar circular. Mas isso demanda forças, estas que não existem e que é possível senti-las se afastando, trazendo o que era o esperável.

A cabeça gira para a janela, dourando os olhos azuis em uma última visão. A cabeça sente uma mão tocando e, em seguida, um rosto inchado e molhado aproxima-se. A dor passa a ser sua, toda aquela dor da perda sobrepõe-se à dor do corpo. Mente e corpo travam mais uma batalha: esse é daqueles momentos sãos em que tudo que gostaria era que as palavras se formassem à boca. Mas segundos após, era como se estivesse encarcerada dentro de sua própria memória, misturando visões do presente e do passado, visualizando tudo que se passava como se fosse outra vida.

Sente, então, outra pessoa apertando sua mão trémula em desespero. Os gritos ressoam nos ouvidos, e o pânico assombra o destino que já era esperado. A mão é liberta da angústia enquanto os berros se tornam mais distantes, trazendo sentimentos de egoísmo enquanto se acerca de que ainda pensa, e que pensa que quer se despedir em paz.

Paz, era tudo que almejava enquanto o ar rasgava a sua garganta. Paz, era que desejava para aqueles que enxugavam seus rostos de maneira comedida e, mesmo em toda a sua dor, conseguiam mostrar sorrisos molhados. Paz, era tudo que poderia oferecer àquela alma que mais sentiria a sua falta, que agora se amontoava quieta no batente da porta e caminhava devagar para perto do grupo, ostentando apenas olhos que se recusavam a aceitar o que a vida não nos deu escolha.

Queria sorrir para todos, queria olhar para todos, mas conseguiu apenas voltar os seus olhos para o pôr do sol, aquele familiar amigo que foi companhia em todos os dias de sua jornada. Acreditava em um futuro com doçuras, caminhadas descalça na praia e o abraço infinito da eternidade. Mas ali, naquele momento em que sentia que sua alma desejava novas aventuras, já não tinha certeza de nada. Somente que havia chegado a sua vez de dar adeus.

Mais uma vez, os olhos se cerraram e uma lágrima solitária percorreu o último trajeto. Um suspiro indicou o que o calor do corpo enganou. E assim, instaurou-se o caos e a dor, experiências inexplicáveis para quem fica e sabe que, um dia, será sua vez.