Eu desisto

Migalhas, eu vivi delas durante um bom tempo… E a verdade é que estou morrendo de fome. A inanição engana, se alimenta de tudo que é bom e deixa você sem nada. E confesso que, hoje, eu estou me sentindo sem nada. Afinal, foi tudo isso que você deixou, não foi? Ou apenas isso, se eu fosse utilizar a matemática correta da vida.

Você não sabe como eu ficava feliz quando nos encontrávamos. Meu sorriso bobo enchia meu rosto, mostrando mais dentes do que eu sabia que tinha. E você prestava atenção em mim durante uns cinco segundos, respondia o meu “oi” e seguia a vida. “Wow”, eu pensava, “ele ainda sente algo por mim”. E eu pensava isso enquanto você ria com seus amigos da situação, como se esperasse que eu aparecesse no meio da madrugada na sua casa para me deitar na sua cama e ser sua por algumas horas. Aliás, pensar que era sua, né? Era apenas isso que você pensava, isso quando cogitava algo.

A verdade era que você não sentia mais nada. Se algum dia eu tinha sido motivo de seus dias alegres, eu já não era mais há tempos. E mesmo assim, você me mantinha ali, por perto, alimentando o seu ego masculino. Como se você precisasse da minha energia para sobreviver – mas você transformava todos os meus esforços em nada.

Durante algum tempo, eu realmente pensava que, talvez, você ainda sentisse algo. Eu repetia para mim: “A situação é complicada”. E eu ficava esperando. E eu esperava. E decidia não esperar mais. Então, em uma lógica cósmica estranha, você sentia meu desejo de ir embora e aparecia. Era um “oi”, um comentário no corredor da faculdade, um bilhete que me passava no intervalo da aula… Teve aquela vez que sentamos na escada e conversamos por horas, quando eu realmente pensei que você gostaria de ser meu amigo. E eu juro que ficaria feliz com isso, mesmo. Mas no dia seguinte, você ficava monossilábico. Você nunca foi mal-educado, mas foi diversas vezes raso – tão raso que meus sentimentos transbordavam naquele lugar. Entretanto, a verdade é que nem isso você pode me dar – você não oferecia nada e eu ficava me doando, cada vez mais.

E eu demorei para reparar em tudo isso. Mentira, reparei sim, mas eu conseguia me enganar, mesmo com tudo que se passava na minha frente. Sou rainha em sonhar acordada, então, sempre eu achava algum motivo. E o motivo era como cada migalha que você jogava incendiava meu coração, palpitando emoções que eu jamais imaginaria que tivesse. Como você por simplesmente existir poderia fazer toda a diferença em minha vida. E nesses momentos as memórias voltavam tão vivas quanto a grama que eu tocava no jardim de casa: nossos beijos risonhos, nossas mãos entrelaçadas, nossos corpos conectados na mágica mais perfeita que eu já presenciei. Eu sempre achava que eu e você éramos para ser.

Bem, eu sempre arranjava as minhas desculpas. Sempre te dava prazos e mais prazos, um monte de datas imaginárias para você descobrir que tinha sentimentos por mim. Primeiro, eu falei que seria dezembro. Em dezembro, aumentei para fevereiro – o deadline tinha que ser justo, né? Fevereiro, bem, tem carnaval, então, por que não ser após o dia dos namorados? E perto do dia dos namorados, você me perguntou o que eu faria. Engoli o orgulho e respondi um veemente nada. Afinal, quando a vida lhe dá as oportunidades que você sempre quis, você não vai deixá-las passar, né? Porém, adivinha o que era? Era você marcando aquele território básico do final de semana. Você perguntou, eu respondi e ficou por isso mesmo. A não ser que você estivesse esperando eu te chamar para sair, né?

Isso eu não faria, admito. Não por orgulho, mas porque eu já tinha feito anteriormente. Eu já tinha aberto meu coração e falado o quanto você ainda era importante para mim. Até cheguei a escrever uma carta expondo tudo que eu sentia. Eu te mandei os meus sentimentos em um embrulho de notas, palavras e com a sinceridade inocente de quem reconhece que a vida acontece apenas uma vez. Então, você me deu em retorno um sorriso, um abraço e eu fiquei sem entender o que você queria dizer com essas atitudes.

Hoje, 10 meses após tudo que aconteceu, vejo que meu corpo e minha mente não aguentam mais. A fome levou o melhor de mim, destruiu meu coração sem dó e deixou apenas um vazio incomensurável. E admitindo a derrota e que não posso aceitar menos, eu desisto. Eu desisto de ficar esperando por você. Eu desisto de me alegrar com suas estadias tão passageiras. Eu desisto de sobreviver com a alegria dos sonhos de quando eu tenho os seus sorrisos, e desisto da tristeza de sentir falta de seus abraços. Eu desisto de você, mesmo que isso signifique desistir da parte mais bela de mim.