Dias estranhos

Parece que se passou um século, mas o calendário ainda nem pôde ostentar todos os seus dias. Enquanto isso, o que se vivenciou foram tantas experiências que roubaram o ar, devolveram a dor e deixaram apenas algo: a certeza de que nada será igual novamente.
Os aviões levaram para longe as notícias boas e as risadas da madrugada. Os sonhos mudaram de apartamentos e ainda ficaram descontentes com pouco espaço para a imaginação. O que deveria ser família arrancou cada experiência da memória, devolvendo no lugar imagens distorcidas de meses que talvez não sejam apagados. Os inocentes abaixaram as cabeças, tendo que admitir que estavam errados apenas para sobreviver. Mas deixar o orgulho para trás foi necessário para se chegar até o próximo dia.
Durante os tempos incomuns, os sorrisos se entregaram às lágrimas.As paixões destruíram o futuro. E o que sobrou foi insuficiente. Como em uma música descompassada, as atitudes conseguiram desafinar a mais bela sinfonia que já se ouviu. As cordas arrebentaram e o estrondo do som machucou os tímpanos. O alvoroço do som contagiou as ruas, que bateram panelas ignorando a sua própria ignorância.
O sol não se pôs. A luz entrou pela janela durante a madrugada,tornando o sono uma eterna maldição. À noite, com olhos abertos e mente afiada,foi possível ser sufocado pelo ar que rasgava a garganta. A onipotência tomou conta dos sentimentos, produzindo castigos que condenavam a alma ao inferno. A eterna condenação pelos mais puros erros.
Na estrada para o futuro, onde os pecados tornam a caminhada vagarosa, a culpa é suficiente para se querer parar. Para se sentir deslocado.E para querer voltar para onde não há mais volta.
Já foi. Já aconteceu. Já foi… Os dias estranhos já estão aqui com suas nuvens cinzentas. Mas há alguns bem-afortunados que ainda enxergam alguns clarões de luz no meio da escuridão. Pena que eu não consigo ver.












