Memórias de um passado e um texto sem sentido

Escuta … Sei que as últimas palavras foram indóceis, mas eu juro que não sabia que seria o adeus. Naquela hora, enquanto eu observava seus olhos focando em tudo que não era eu, era como se o mundo estivesse desabando. E com ele, a minha autoestima e meu temperamento. A loucura dominou minhas palavras, que ásperas, cuspiram a dor que apertava meu coração e sufocava meu estômago. Tantas letras que nunca representaram o que tinha se passado, e sim, apenas a solidão de ficar no escuro do destino, desesperada pela luz da sua presença.
Sei que virei as costas, engoli meu orgulho e caminhei certa, com passos fortes e apenas em uma direção: longe de você. O que você não sabe é que as lágrimas lavaram meu rímel e formaram caminhos negros em meu rosto, que se assemelhavam às crateras que sua falta de amor trilhou em minha história. Naquele momento, eu queria voltar, correr para seus braços e assumir minha fraca ineptidão para o amor. Entretanto, a raiva fervia meu sangue, jorrava memórias distorcidas em minha visão e me afastava de tudo que um dia tinha sido nós.
Durante anos, eu imaginei que haveria uma outra chance. Que iríamos nos encontrar por acaso em um dos bares da vida, e que você chegaria perto de mim, querendo conquistar novamente o que ainda era seu. As noites eram plenas das memórias inventadas de nós dois, de eu querendo me afastar e de você afirmando que sim, havia me amado durante aquele hiato, ansiando desesperadamente pelo reencontro. O roteiro das cenas de filmes da sessão da tarde estava tão bem detalhado que eu ficava pensando nos porquês de aquilo não fazer parte da vida real – afinal, o que eu mais ouvia era que, se você desejasse muito algo, o Universo conspiraria para que se tornasse realidade. E naquele momento, eu sabia que o Universo admitia que não havia nada no mundo que eu queria mais do que você.
Você nunca apareceu. Você nunca me ligou. Você seguiu seus passos cambaleantes, conquistando morenas pelas madrugadas e acordando em camas vazias. De longe, eu sabia de tudo: seus amigos faziam questão de me contar suas últimas histórias, suas últimas cantadas e as últimas garotas que se enrolaram em seus lençóis. Sua vida de paixões efêmeras e noites boêmias preenchia seus dias; sua vida de paixões efêmeras e noites boêmias roubava meu sono.
Então, fiquei sabendo dela. Daquela menina que brigou pelo seu coração enquanto eu achava que ele era meu. Daquela menina que vestia vermelho enquanto eu adorava xadrez. Daquela menina que cantava enquanto eu dançava pulando todas as músicas que eu sabia de cor. Aquela menina que também poderia ter sido sua, só sua, assim como eu fui. Aquela menina que apertou meu coração, destruiu minha autoestima e me fez chorar.
Eu jurava que seria ela. Eu jurava que seria para ela que você entregaria o seu amor, aquele sentimento que eu sonhava que seria meu algum dia. Mas não foi. E quando eu vi que ela tinha superado a dor de não te ter, foi quando eu pensei: será que realmente dói este tanto? Será que a vida de sonhos é apenas uma enganação? Será que a esperança de te falar as palavras mais doces simplesmente deveria se tornar uma dúvida?
Hoje, observando toda a minha fraqueza revestida de vitória, eu consigo entender que fui irônica comigo mesmo. Fui irônica com a vida. Afinal, eu apostei todas as minhas chances em você como se o futuro acabasse em si mesmo, como se o ar que emanaria ao seu lado fosse diferente de qualquer outro ar no mundo. Eu te deixei de cabeça erguida, mas com o peito cheio de soluços, atormentada pela possibilidade de não te ter nunca mais. Como se o daqui a pouco fosse meu. Como se o futuro fosse meu. Como se o destino fosse simplesmente meu.
O interessante – e, ao mesmo tempo, entristecedor – sobre o futuro é que, em algum ponto, ele se torna passado. Em algum momento da vida aqueles desejados dias ensolarados acontecerão. Ou não. As lágrimas que julgamos eternas cessarão. E os sonhos mais inspiradores poderão se tornar as memórias mais lindas ou as maiores desilusões. A questão é: a história continua, e a minha continuou. A sua também. Em estradas distantes, com personagens diferentes e finais desiguais.
E mesmo com a vida nos distanciando, eu ainda sinto que preciso te pedir desculpas. Não queria ter te deixado com palavras insólitas, que amarguraram todo o amor que eu senti por você. Aquela não era eu, nunca fui eu. Era a dor que gritava a necessidade de ser especial, a necessidade de viver aquele amor, que até então, eu achava que seria único. Era o medo do nunca mais, era o pavor de ter vivido o mais belo dos sentimentos para vê-lo se transformar em vazio. Era a saudade desesperada em meu peito, ansiando por algo que nunca tive de você. Era o meu eu simplesmente querendo apenas você.
E por mais que eu admita que a dor nos leva à loucura, não gostaria de lembrar de você assim. E nem que você lembrasse de mim assim. As memórias que desenterram os momentos me levam para abraços apertados, beijos apaixonados e olhares que se encantam com a presença do outro. E mesmo que apenas eu tenha vivido isso, é assim que eu que quero lembrar de tudo que aconteceu: com o coração leve e com a sensação de que, sim, eu te amei.
Sinceramente, espero que você esteja bem. Que esteja feliz com suas escolhas. Que as noites sem fim te preencham e que as diferentes companhias façam parte do seu propósito. Eu também quero estar bem. E ficarei. Agora, eu te deixo ir para longe dos meus sonhos para habitar o meu passado. Agora, sei que os sentimentos serão pequenas lembranças de uma garota que não existe mais. Agora, eu sei o que eu já deveria saber: não era para ser. E eu estou em paz para encontrar aquele amor que vai me fazer ficar.












