Meu lindo erro

Era frio, era julho e era noite. O frio na barriga estava lá e não era ocasionado pela temperatura, que girava em torno de 5ºC. Era a espera, que sussurrava ideias em meu ouvido como se fossem certas. Ah, mas essas ideias sempre me confundiam, consumindo meus sentimentos e me levando a caminhos indeterminados. Mas elas também me acalentavam, fazendo com que fosse quase possível tocar nos sonhos impossíveis, a familiaridade de um destino improvável.
Eu esperava ansiosa. Olhava para o celular mais do que deveria. Tentava disfarçar a ansiedade. Afinal, era muito cedo para dizer qualquer coisa, mas talvez fosse muito tarde para fazer qualquer coisa. O que eu sentia era que o tempo e o desejo não tinham se encontrado. A ironia da desilusão estava ali, era visível, mas eu decidi não enxergar. Queria fechar os olhos para todo o mundo, para tudo que apontasse o que eu já sabia. A esperança é o combustível dos tolos, e eu, naquele momento, era a maior deles.
Eu me distraí e peguei uma cerveja. Conversei com estranhos. Virei sociável. Foi entre conversas fúteis e sorrisos inventados que eu te vi. Olhei o celular e a ligação não estava lá. E foi aí que eu me dei conta de que, talvez, você não quisesse me ver.
Peguei outra cerveja. Encontrei outro grupo para conversar. Joguei baralho e até aceitei um cigarro como distração. Entre um vapor e outro, com meu corpo rejeitando a nicotina e o alcatrão, você apareceu. “Esta é a Ana, minha namorada”. O frio que estava na barriga foi para a boca. Era tarde, era errado e eu sorri. Dei um abraço nela com a certeza de que tudo estava acabado. Os milhares de finais felizes percorreram a minha mente: por um momento, eu fui feliz. Até não ser mais. Mas você me olhou. Um sorriso sem graça apareceu, a justificava para a ligação nunca retornada. A justificativa para a espera. E a justificativa para despedaçar meu coração.
A noite foi acontecendo. O sentimento que me consumiu teve a ajuda do álcool para liberar a minha mente. Aquela ironia da euforia iludida foi se misturando com a brisa da noite fria. Eu não sentia mais meus dedos: não sabia se pelos copos gelados ou pela opção de ficar perto dos fumantes ao ar livre. Mas ali, observando a lua, era onde eu me sentia bem. Ou quase bem.
Você apareceu novamente. Desta vez, Ana estava longe, divertindo-se com seus longos cabelos louros e olhos amendoados. Confesso que te entendi: ela era apaixonante. Eu, não.
Mas daí, você puxou papo, pegou na minha mão e me levou para um canto. Era a primeira vez que eu sentia aquele calor. Pensei em desenlaçar os dedos, que se encontraram assim tão de repente. Você falava para eu ficar calma. Eu, envergonhada em deixar o meu coração passar mais por essa experiência, olhava para o outro lado.
Aquele momento me consumiu. Você se aproximou e pediu desculpas. Falou que estava confuso, que não sabia o que queria. Mas eu já tinha essa certeza: tudo que você não queria era eu. Eu deveria ter ido embora. Eu deveria ter feito tantas coisas. Mas suas mãos estavam entrelaçadas com as minhas. E era quente. Era familiar. Como se fosse para ser.
E então, você se aproximou mais. O toque prolongado no cabelo. Minha pele sentindo sua pele. E mais perto você veio. Aqueles lábios rosados encostando nos meus. Eu sabia que não deveria: corações que se quebram facilmente sentem o perigo à frente. E quando eu me entregava à euforia, você se afastou. Fechou os olhos, abraçou-me forte e se foi.
Fiquei parada. Fiquei sozinha. Fiquei esperando. Fiquei lembrando. Um misto de sensações tão certas e tão erradas. Um misto de mim e de você ainda na minha boca. Um misto de saudades de algo que nunca aconteceu.










