A última vez

Estávamos apenas nós dois e o vento foi testemunha da última vez que nos vimos. O seu olhar demonstrava que era o fim. O meu, assustado com a tremedeira que agitou meu corpo, aceitou aquele adeus. Nem encostar em meus lábios a sua boca quis: você me beijou na bochecha, me deu um abraço de leve e se virou. Entrei sozinha no carro com vontade de gritar todos os meus sentimentos, mas a dor me sufocou e eu fiquei calada novamente.

Eu sabia que não deveria estar ali. Suas atitudes já me diziam há tempos que os sentimentos não eram iguais. Entretanto, a ânsia de ser feliz desconstrói todos os valores e a moralidade, levando à destruição da consciência e da paz de espírito. Eu apenas queria você de qualquer jeito e sentia no seu toque o paraíso que eu jamais tinha encontrado. Era simples assim, como as músicas melosas que adoro ouvir. Cada uma delas contava a nossa história.

Não sei dizer quando o fim se iniciou. Talvez tenha sido na primeira vez que nos vimos, quando eu me apaixonei pelo seu sorriso e nem sabia. Ou quem sabe, naquele beijo roubado após o trabalho, quando você virou os lábios e encostou nos meus delicadamente até o momento em que decidiu embolar os meus cabelos e acariciar o meu pescoço. A intensidade de tudo ainda me rouba o ar e as esperanças, deixando apenas imagens latentes de momentos tão completos e tão ligeiros.

O momento no qual eu tive certeza que queria foi quando você se afastou. E quando eu me afastei porque não suportava mais sofrer foi quando você me procurou. Os encontros no meio da madrugada, as risadas no banco de trás de seu carro, todas as histórias que terminavam com meu coração cheio das sensações mais doces e serenas. Nossos segredos nos uniram em uma jornada única, inesquecível e que ainda assombra minhas noites.

Eu disse sim querendo dizer não, mas o não querer era tão fraco que o fazer me fez desistir de tudo naquele instante. Você me olhava de lado, me abraçava em falso e prestava atenção em qualquer outra coisa que não fosse eu. Inquieta, eu não acreditei que pudesse ser o fim, apesar de ter admitido que meios sentimentos não completariam um coração cheio de amor e vazio de retribuição. Ficamos de mãos dadas, eu sentindo seu calor congelar minha alma e me dando a certeza de que você não queria mais a minha presença.

Eu me lembro de tudo da última vez que nos vimos. A garrafa de vinho tinto em cima da mesa, o chocolate pela metade e o seu telefone, que não parava de tocar. A TV ligada em um canal qualquer e um filme de comédia que sempre passava na sessão da tarde. A coberta que tentou aquecer nossos corpos, sua barba por fazer e a irritação na pele após nosso último beijo. Foi então que eu deitei em seu peito e senti que aquele coração não era meu: as batidas desgostosas desmentiam minha ilusão e era hora de eu ir.

Peguei minha bolsa e descemos as escadas. Suas mãos não encostaram nas minhas. Seu corpo não teve anseio pelo meu. Os passos largos em direção à porta, o silêncio em resposta à minha paixão. Você não precisou falar nada porque eu entendi, apesar de ainda sonhar com outros finais. Você não precisou externar porque seu olhar te entregou com a mesma veracidade que me conquistou.

Ainda não sei porque imaginei um destino diferente para nós. Talvez por ser ingênua ou não querer desistir do que me fez sentir completa. Mas se a beleza das coisas reside na efemeridade, era fato que o que vivemos teria um fim.