Multidão e solidão

No meio das multidões, onde pessoas se encontram e se identificam, é onde eu me sinto mais sozinha.
Como se eu não estive ali. Como se a minha presença não fosse desejada. E assim, eu me sinto completamente só.
As pessoas atravessam meu corpo. Ignoram minha alma. Não querem confraternizar com meu sorriso, que escasso e abandonado, cansa-se de brilhar sem retorno, dando espaço para este sentimento tão apertado.
A vontade de ir embora é grande, mas eu fico. Eu fico com o resto pisoteado, com a vaidade destruída, com a esperança falha.
Com a inocência serena de quem imagina que o futuro reserva novidades. Com a certeza de que elas se mostrarão insuficientes.
E o vazio me persegue. Ele me encontra nos lugares cheios. Abraça-me e me acompanha, engolindo meus olhos cansados.
Consome esta alma inquieta, que devora o orgulho e permanece para ser pisoteada. Sozinha no meio de todos. Sozinha enquanto observa a beleza da vida alheia.
Quisera eu que a solidão fosse uma escolha, e não uma consequência. Difícil pensar que não seria.
A resposta dos inaptos é imergir na amargura da inexistência. Quase uma presença, mas tão falha quanto a ausência absoluta. Não há aconchego; há apenas desespero.
Seria a resposta calar-se por inteiro? Quando estar é necessário, a alma se esconde em lugares inabitados. O corpo fica e enfrenta olhares contra o vento. Fingir é esperado mesmo quando você nunca é convidado.
As velhas amarras sociais que lhe roubam a serenidade. Tentar novamente ser amado para sentir o gosto amargo do rejeito. O abraço renegado. O sorriso não retribuído. A presença indesejada. A solidão que me persegue.
Enquanto há pessoas, a paz não existe. Apenas a luta constante e o sentimento que não vai embora. Olhares tristes se escondem nos sorrisos que se empenham e se cansam. E se misturam com as lágrimas no banheiro, as quais ninguém nunca vê.












