Quatro estações
Primeiro, a primavera. As cores radiantes das flores e o perfume característico de novidade encheram meus pulmões com sensações inexplicáveis. O frescor dos dias anunciavam que a beleza faria parte de meus sorrisos. As pétalas rosadas cobriam os caminhos, com a suavidade e fragilidade de tudo que faz o ato de ver a maravilha que contagia os pensamentos. A temperatura cantava para que os botões se abrissem, a melodia que acalentava todos aqueles que estavam por perto. Era visível que a transformação era inevitável e necessária. E mesmo as chuvas tinham a missão de garantir que a natureza realizasse mágicas, alimentando esperanças de que um arco-íris ainda poderia despontar no céu como a lembrança de todos os tons enigmáticos.
Em seguida, veio o verão. O calor intenso que fez meu coração explodir de alegria – eram nesses momentos em que ele cantava as músicas que embalavam sonhos. As noites quentes eram um convite para ir às ruas para admirar as estrelas que se escondiam atrás dos prédios. Mas para mim, elas também eram visíveis quando eu decidia deitar na grama e desenhar constelações com a ponta de meus dedos. As pessoas pareciam mais alegres enquanto os dias eram mais longos, e as pegadas na areia se multiplicavam e eram apagadas pelas ondas, que insistiam em refrescar os pés sujos e cansados. A pele bronzeada não se importava com as gotas de suor, e os dias eram presenteados com céus rosados e alaranjados, cenas perfeitas para os quadros que pintei e enchi as paredes de minha sala. As noites amenas e os abraços quentes se arrastavam pelos quarteirões, resultando na poesia mística da promessa de felicidade. Se houvesse perfeição, eu diria que ela estava presente nesses dias adocicados, cheios de sorvete, água de coco e memórias contagiantes.
Foi então que o outono apareceu. Os dias passaram a ser nublados e era necessário carregar casacos para não passar frio no final da tarde. A distância veio quando as ligações tomaram lugar dos encontros, indicando que baixas temperaturas estavam se aproximando e que não havia outra opção, a não ser ficar em casa. Da janela de meu quarto, eu via as folhas se revestindo de amarelo, para então, lentamente desprenderem de suas vidas para encontrarem seu fim. As árvores desnudas ecoavam medo, mas ainda mantinham sua singularidade, exaltando a beleza de quem ainda quer resistir. Ainda havia dias bonitos, mas o futuro já era inevitável. Mesmo assim, ainda era possível encontrar dias quentes e flores que despontavam em sua anormal teimosia. Raridade, acalentavam meus sentimentos enquanto eu tomava chá de todos os sabores para aquecer meu coração.
Sem crueldade, sem demora, vieram os dias congelantes. O inverno se apoderou de tudo, esfriando os corpos quentes, as lembranças incipientes e a utopia das flores e do calor escaldante. Já não era possível ir às ruas: a neve bloqueou os caminhos, tornando-os escorregadios. Arriscar-se era ir ao encontro de uma fatalidade, já que a população se escondeu com medo de se perder nas estradas brancas. Já não se viam mais pegadas; o que era verde, teve sua vida tirada de maneira cruel e os animais fugiram ou morreram de fome. Os galhos secos carregavam espinhos e o breu brigava com o sol para ver quem consumia os céus. A escuridão e o vazio faziam par e enfrentavam o frio e o gelo, travando batalhas em que não haveria ganhadores. Eu, sentada no chão da sala, observava os quadros que enfeitavam minha sala enquanto sentia meu corpo tremer com as rajadas de vento. A lembrança era tudo que sobrou e que me manteve firme enquanto a casa sucumbia ao frio, e eu, à hipotermia.










