Colisão
Existem coisas que acontecem apenas uma vez na vida. E você foi uma delas. Uma dessas apostas que fazemos sabendo que as chances de dar certo são mínimas. A fé nos faz fechar os olhos e pular o penhasco simplesmente porque o mar era bonito. Nesses momentos, nem nos importamos se as águas são profundas – a vontade de sentir aquele azul nos envolve e refrescar a vida cansada é motivo suficiente para tolerar toda a dor de ralar o corpo nas pedras. Esse é o exemplo de tolice que juramos que nunca mais faremos. Mas, quando nos damos conta, estamos fechando os olhos novamente para tudo que se passa na nossa frente, isso apenas para acreditarmos nas narrativas fantásticas que inventamos em nossas cabeças para mascarar a realidade.
Não sei explicar o que aconteceu. Nosso encontro foi como uma colisão frontal e até hoje eu lembro do som de quando nossos corpos se aproximaram pela primeira vez. Era impossível não te perceber no meio de toda a multidão, mas juro que achava que você jamais olharia de volta para a garota mais chateada da balada. Aquele não era um bom dia, mas mesmo assim, aceitei o convite das amigas e fui tentar me embalar pela banda que tocava às sextas-feiras. Música era o que me motivava nesses momentos – embora, nesse dia, o que me cativou foi a bebida.
Observei seu olhar quando virei o shot de tequila. Quase me engasguei porque sorri por dentro quando imaginei que nossos olhares se cruzaram. Mas foi quando você se aproximou que tive certeza de que não estava imaginando.
Ainda lembro do seu cheiro e de sua camisa jeans. O sorriso e o papo bom eram o conjunto perfeito para os olhos azuis. Tudo era muito perfeito e eu desconfiei. Mas como você ficou, despi minha alma para você. Entreguei o que eu tinha de mais valioso: meu coração. E você nem se esforçou para me conquistar – bastou existir.
Quando eu relembro e vejo tudo que te entreguei, entendo o vazio que ficou. Durante aqueles três meses de paixão torrente, que acendeu a alegria em cada célula do meu ser, eu achei que, finalmente, eu viveria histórias, não momentos. Quando eu estava em seus braços era como se eu tivesse me encontrado – e a verdade era que eu nem sabia que eu tinha me perdido. As sensações que vivi foram únicas – acabei tomando atitudes que jamais acharia que tomaria. Eu estava preparada para deixar para trás todos os meus medos e inseguranças, as lembranças de relacionamentos abusivos, que me alimentaram de depressão e roubaram a minha juventude. Finalmente, eu seria feliz.
Eu sabia que não era certo colocar toda essa expectativa em nada, nem em ninguém. Sei que temos que ser felizes por nós mesmos e eu estava até bem antes de você aparecer. Só havia aquela vontade de ter alguém. Mas não simplesmente alguém, de ter O alguém. E me vi receosa de que não fosse real. Fiquei com medo de investir meu coração em algo que poderia dar muito, muito mal. Afinal, quanto mais a gente ama, mais a gente sofre. E minha razão e meus sentimentos começaram a entrar em conflito, cada um deles tentando sobreviver no mar de dúvidas, inseguranças, felicidades e tardes repletas de beijos.
Fui buscar respostas que as minhas amigas não conseguiram me dar. Quando a moça cigana olhou para mim, ela disse de forma tão assertiva que meu corpo tremeu: você era um fragmento da minha alma, um pedaço de amor. Falou que encontramos poucas pessoas assim na vida. E aquilo me animou na mesma medida em que me roubou o ar. Esperançosa, pensei que daria certo. Calculista, visualizei cada detalhe da relação. Pessimista, me enrolei nas cobertas e chorei até o amanhecer.
A iminente tristeza se concretizou quando você foi embora. Você foi embora aos poucos, caminhando para longe e nem se deu o trabalho de olhar para trás nenhuma vez.
Foram anos tentando juntar os fragmentos da nossa colisão. Mas o que eu sei é: o estrondo da batida inesperada também deixou zumbidos em seu ouvido, e talvez um ou outro arranhão.










