O silêncio das luzes

Daqui do alto, eu observo as luzes dançando nos prédios. Enquanto as cores trazem uma visão do breu, eu fico pensando nas tantas almas que caminham pelo mundo. Neste ponto, quando a imensidão dos arredores parece tão maior do que eu poderia percorrer, eu penso em como as pessoas se encontram. E então, eu penso em você.
O vazio é intensificado pelo barulho do vento, que imponente, faz minha saia dançar e gela minha espinha por completo. E então, eu fecho os olhos, deixando as memórias dominarem a razão por alguns segundos. O seu toque em minha pele. Nossos olhares cruzados. E quando mais algum pensamento me levaria até o infinito dentro de mim onde você habita, a realidade me chama aclamada pelo vento, que embola meus cabelos em uma dança icônica e solitária.
O corpo sente e treme enquanto eu me debruço no parapeito. Enquanto eu simplesmente observo. E ninguém sabe que estou ali.
Uma luz é engolida pela escuridão na sacada que eu observo. Fico imaginando que são pessoas felizes que vivem ali. Fico imaginando quantos sorrisos podem caber em um apartamento. E me pego pensando em como poderíamos ser nós naquele mundo perfeito que criei. Uma sala. A cozinha. O sofá e a gata, que nos acordaria na madrugada. A simplicidade que me completaria. A plenitude que seria viver esta vida com você.
Dou mais alguns passos e foco nos andares mais baixos. O movimento dos carros. As cores que os faróis desenham no chão. Dali de cima, o mundo parece tão perfeito. Qualquer lugar do mundo parece perfeito quando ele tem você.
A noite adentra. O relógio me chama. Eu desço as escadas. A realidade me soca e me inebria, me rouba a juventude e a esperança. Então, caminho pelas ruas escuras. O silêncio das luzes me acompanha. E os pensamentos tristonhos invadem meu ser.
Tento não chorar, mas as saudades se materializam das mais perversas formas. O seu carro que cruza a esquina. O restaurante que frequentávamos às sextas-feiras à noite. O bar que faz seu drink predileto. A calçada onde sentamos para comer cachorro-quente. E o caminho para sua casa, que nunca mais percorri.












