Não faz muito tempo que as memórias físicas eram guardadas com cuidado, sendo tratadas como troféus e trilhas de uma vida. Fotos, bilhetes, cadernos de confidências, cartas e até diários eram armazenados em locais seguros, protegidos por paredes de caixas, que ajudavam a deixar intacto tudo que a mente poderia utilizar para evocar sentimentos e as mais sinceras lembranças. Algumas vezes, esses objetos assumiam posições de destaque nas residências, suprindo ausências que as religiões tentam explicar, mas que continuam a destroçar corações e proporcionar futuros incertos sem a presença da existência daquela pessoa.

Com o ciclo natural da vida, esse material era entregue à próxima geração, que se apropriava das letras e imagens, visualizando um novo significado para cada um daqueles objetos. Nesse momento, a imaginação imperava, possibilitando a reconstrução dos sonhos, experiências e amores de seus antecessores. A falta se misturava a uma realidade construída, jamais imaginada se não houvesse apoio dos documentos que retratavam os antepassados.

Então, chegou a tecnologia. Com ela, também vieram novas possibilidades, novos amores e novos mundos. Apenas um conjunto de códigos que conectou o planeta, levando informações pela nuvem em um processo que até parece abstrato. As cartas, que poderiam demorar semanas para chegar, foram substituídas pelos e-mails, correspondências eletrônicas que fizeram o carteiro perder sua poesia. A rima se tornou a facilidade, a quase instantaneidade, ampliando contatos e extinguindo distâncias.

As novas histórias passaram a ser contadas por esse meio. As letras, que eram uma assinatura fiel do emitente, passaram a ter os mesmos traços, limitados às configurações disponíveis dos servidores. Mas o e-mail ainda tinha sua própria música, proporcionando devaneios profundos sobre os mais sinceros sentimentos. Essa composição única, entretanto, ficava limitada àqueles que eram os detentores do conteúdo, também gerando espaço para palavras chulas e ideias sem entusiasmo.

O sucesso do e-mail era evidente, até que os mensageiros instantâneos chegaram – e com eles, a superficialidade e o imediatismo. Se as composições antes eram idealizadas para materializar os segredos e anseios, agora elas foram substituídas por noções vagas e muitas vezes impensadas ou impulsivas. O histórico se perdeu nas trocas de celulares, e aquele primeiro “eu te amo” foi esquecido entre mensagens cotidianas e sem grande valor.

As fotografias ganharam novas dimensões. Se antes eram obras de arte, hoje se assemelham à maioria das produções textuais dos jornais: visualizadas por segundos, destroçam-se e não conseguem se destacar entre tantas imagens, limitando-se a uma existência vazia e curta. Sua forma imaterial permanece confinada aos aparelhos seguros por senha ou em plataformas gratuitas, sendo que sua perenidade se esmaece junto com os últimos suspiros de vida, renegando às gerações futuras os registros de uma existência.

O passado está confinado no hoje e tem seu futuro no mundo digital renegado, isso se não houver uma preocupação verdadeira com a forma que queremos ser lembrados. É necessário fazer com que o ritmo harmonioso e caótico de uma vida não se torne o que todos temos medo de ser: esquecíveis. As lembranças merecem permanecer nesta terra, proporcionando que a história exerça sua função. Ideias, imagens, pensamentos e sentimentos devem ser organizados, para que assim as gerações futuras possam fazer o que um dia nós já fizemos: admirar e imaginar o que não existe pelas evidências que indicam que um dia foi real.

Divulgada originalmente em 4 de julho de 2017.