Os mesmos sentimentos esquecidos. As mesmas ruas escuras. O nó da garganta, o frio no estômago, o vento lá fora e a tremedeira na alma. A emoção e o desprazer se sentir. Sentir na pele, sentir o sol. Sentir vontade, sentir saudades, sentir a ausência. Apenas sentir.

Não havia mais nada em mim. Palavras resgatavam o que um dia foi um misto de emoções, mas nada mais me abalava. Foi então que eu rasguei meus pensamentos em palavras desconexas e assumi meus medos mais íntimos. Juntos, estavam o descaso do passado, a inexatidão do presente e a frágil esperança do futuro. Juntos, eram um monte de fragmentos dos meus erros, dos cortes na pele, das incontáveis lamentações e da vontade de não existir. Mas também havia sorrisos ilustrados em lágrimas, abraços aconchegantes e as árduas conquistas que deixavam o fracasso ser um mísero detalhe. Mas a verdade era que os mortos já não existiam: enterrados e decompostos, suas podridões já não incomodavam minhas entranhas.

Não havia mais nada em mim. Sentimentos desapareciam e o caminhar era quase tranquilo, mas nunca pensei que pudesse ser infeliz. Porque nesse embolado de pensamentos impensados, mais fúteis que maquiagem barata comprada na farmácia, os monstros que habitavam meus sonhos decidiram se rebelar. O movimento de tranquilidade confundiu-me: vestiu-se de paz e trouxe um abismo, um novo caminho obscuro alimentado por atitudes mesquinhas. Entre mim e quem eu queria ser, havia apenas eu, mas eu não sabia.

Fechei os olhos. Cerrei os punhos. Prendi a respiração. Em passos largos e incertos, eu me despi de todas as minhas certezas. Nu e frágil, meu corpo foi acariciado por um misto de sensações – tão conhecidas, mas tão estranhas. A certeza alimentada pela incerteza. A vontade alimentada pelo inércia. O medo alimentado pela descoberta. E a descoberta alimentada pela perda. Os mesmos temores. Os mesmos sentimentos. As mesmas certezas. E a ânsia por não sentir novamente. E a ânsia por sentir mais uma vez…