Eu não acordei bem hoje. Talvez seja eufemismo limitar a hoje e utilizar a palavra bem para indicar algo que vem ocorrendo há uma semana. Há uma semana ou mais, já não sei bem. Sei que a sensação vem e vai, e desta vez, ela quis prolongar a estadia. Não, ela não é bem-vinda, mas assim como um parente indesejado, ela é família. Ela é família e não consigo mandar embora, mesmo eu querendo. O querer não tem vez: ela faz parte de mim, de você e de todo mundo.

O máximo de esforço que fiz foi levantar da cama. O pijama, o cabelo e os dentes permanecem intocados, naquela sensação de que não há o que se fazer. Levantar já foi difícil, inimaginável. Mas, ao menos, pretendo que vivo, pretendo que tentei. Bem, eu tentei, ou estou tentando, não estou?

Nesses momentos, eu sei que ele não me ama. Apesar de ter prometido me amar na alegria ou na tristeza, ele não consegue encarar nada que não seja sorriso. Não sei o porquê dessa limitação. Quando tudo que eu preciso é de um abraço e que ele me mostre que me ama, bem, é exatamente quando ele não consegue fazer isso. Ele ama sorrisos, mas detesta tristeza. Eu entendo, afinal, eu não amo tristeza também. Mas eu aprendi a conviver com ela e com suas passagens. Ele, bem, parece que nunca teve visitas indesejadas. Ou ele finge que nunca teve.

Poucas vezes eu vi suas lágrimas. E quando elas veem, ele não deixa abraça-lo. Logo quando eu quero fazer o que gostaria de receber, ele me afasta. Como se, de alguma maneira, não vivêssemos a mesma vida. Logo em seguida, quando não há nada que implique que o rosto ficou úmido e os olhos vermelhos, ele continua e não toca mais no assunto. Ele consegue mandar embora tudo tão rápido, esquecendo tão instantaneamente, que me dá medo. Medo de que ele também não lembre de mim.

Poucas vezes eu o vi saltitante de felicidade. Suas reações são comedidas quando envolvem sentimentos. Ele só exagera quando quer tirar sorrisos dos demais. Fora isso, ele caminha em uma linha tênue de serenidade, vivendo a vida em sua medida. Já eu, criada no meio de festas, discussões e cenas épicas de filmes, sou o contrário: sou intensa. Se é para ficar feliz, eu fico. Sorrisos, alegria, música e o Sol queimando a minha pele, lembrando que estou viva. Se é para ficar triste, eu fico. Lágrimas, dor, sentimento de culpa e o Sol queimando a minha pele, lembrando que estou viva. Porque se em algum momento eu não sabia disso, bem, a minha pequena sabedoria de vida me fala que vou viver a tudo isso enquanto eu ainda sentir. Enquanto eu sentir, há vida. Enquanto eu respirar, há vida. Enquanto eu estiver aqui, há vida.

Nesses momentos, eu sei que ele não me ama. Ele preferia alguém igual a ele, que tivesse sorte de ter a vida equilibrada. Afinal, ele não viveu o que eu vivi. Ele não viu o que eu vi. E ele certamente não sentiu o que eu senti. Penso se é somente ele que vive assim e chego à conclusão que não. Afinal, amores épicos não sobrevivem às falhas. Afinal, é tão fácil amar alguém na mesa de bar, quando a única preocupação é chegar ao estacionamento a tempo e garantir que a maquiagem esteja intacta ao final da noite. Quando somos charmosos, bem eu sei, podemos ser implacáveis: cultura, beleza, inteligência, equilíbrio. Até que chega o dia – na verdade, o dia a dia –  e muda essa visão. Na rotina, na sede, na fome, na dor… E assim, somos imperfeitos, com cabelos desgrenhados, com olheiras, com vontade de desistir. Somos apenas seres, apenas o que somos.

É preciso compaixão e paciência. Eu sei que ele me ama e vai esperar meu bom momento. Mas sei que, agora, neste momento, ele não me ama. Mas eu, sim. Porque sei que amanhã é outro dia, e, quem sabe, ela vá embora. Permaneceu? Tudo bem. Uma hora, ela irá. E é isso que eu quero me agarrar. E essa é a esperança que eu preciso.