Solidão Itinerante
Trancada, observando a janela. Lá fora, tantas oportunidades e eu aqui, lutando contra a solidão que invade meu peito. O telefone toca, mas parece que do outro lado da linha só há reclamações e perda de tempo. Estou perdendo meu tempo. Sei que estou, porém a vontade não acalenta meu coração para despertar para a vida. Dizem para mim que o Sol brilha lá fora, que o dia está lindo… Levanto e dirijo-me para o espelho, começo a fitar meu semblante. Tantas marcas que já nem me lembro, tantos medos que eu já não escondo. Meus olhos cansados, as unhas feitas, a maquiagem borrada. Olho para mim e já não sei mais porque choro. Perco-me entre as lágrimas, enquanto ouço a insistência do telefone. Não sei se atendo, e volto para o mundo, ou se me perco diante da minha imagem distorcida, tentando descobrir quem sou. Vou tentar descobrir quem eu sou, vou olhar para mim mais uma vez.
Fantasmas por todos os cantos, e mesmo assim, sinto-me sozinha. Fotos de um tempo que foi permeiam a minha mente; não consigo tirá-lo de meus pensamentos, ele já faz parte de mim. Ele escolheu ir, mas faz parte de mim. Tantas coisas em meu quarto, a minha juventude perdida em meio a sonhos que nunca serão realidade. Meus sonhos são apenas meus e serão nuvens no momento em que eu partir. Nuvens que colorirão o céu com pureza, entretanto, não viverão além de alguns dias. E quando mais eu reflito, mais chego à conclusão de que estou perdendo meu tempo, que estamos perdendo o nosso tempo. Já não sei se vale a pena, foi apenas um surto de alegria, e agora em um suspiro, nas lágrimas mais amargas que já provei, eu sinto que a minha vida está… Eu não sei mais se há vida aqui, porque a dor me atormenta a ponto de eu querer desistir, de eu querer apenas ir.
Trancada, observando a janela. O cano gelado me irrita, mas parece a minha absolvição. Talvez lembrem de mim como uma Julieta, e eu inspire algumas canções de amor. Eu sei que não tenho coragem, por isso aperto o cano contra a minha testa e fecho os meus olhos sonhando com dias melhores, com ele aqui. Talvez eu tenha que viver para esquecer… Ou para esperar.
Escrito em 14 de setembro de 2004.










