O corpo se mexe, o ar entra e sai
Barulho que engana o descaso que ficou
Encostado no chão absorve a falta de calor
Enquanto a alma se enrosca esperando algum salvador
As ligações e os passos pesados na escada não previram o que aconteceu
Inúmeras tentativas em vão deixaram marcas que enganaram a realidade
Era março e o corpo estava jogado no chão
Arrastado foi para não passar frio
Inerte, cansado, sofrido, ele relutava com o ar
E foi quando, de dentro, o sangue decidiu jorrar
A simetria perfeita se desconfigurou e os calmantes não deixaram avisar
E cada parte se vestiu de silêncio enquanto expelia os últimos sons
Enganando aquele que subia as escadas após cada ligação
Então, quando a vida se foi, o frio tomou conta do ser
Que tocado causou comoção
A alma berrava porque ela não conseguia ver
Aqueles que abraçavam o corpo querendo também morrer
Do chão, o corpo foi para o caixão
Ganhou flores, maquiagem e roupas
Ganhou visitas, lágrimas e lembranças
Ganhou uma gaveta, velas e cartas
Ganhou mas também levou
Levou esperança, juventude e sossego
Levou memórias, futuro e tranquilidade
Levou mas também deixou
Deixou amor. Deixou saudades.